Quando o ego está em guerra, saiba que isso não passa de uma ilusão que está lutando para sobreviver. Essa ilusão pensa ser nós. A princípio, não é fácil estarmos lá como testemunhas, no estado de presença, sobretudo quando o ego se encontra nessa situação ou quando um padrão emocional do passado é ativado. No entanto, depois que sentimos o gosto dessa experiência, nosso poder de atingir o estado de presença começa a crescer e o ego perde o domínio que tem sobre nós. E, assim, chega à nossa vida um poder que é muito maior do que o ego, maior do que a mente. Tudo de que precisamos para nos livrar do ego é estarmos conscientes dele, uma vez que ele e a consciência são incompatíveis. A consciência é o poder oculto dentro do momento presente. É por isso que podemos chamá-la de presença. O propósito supremo da existência humana, isto é, de cada um de nós, é trazer esse poder ao mundo. E é também por isso que nossa libertação do ego não pode ser transformada numa meta a ser atingida em algum ponto no futuro. Somente a presença é capaz de nos libertar dele, pois só podemos estar presentes agora - e não ontem nem amanhã. Apenas ela consegue desfazer o passado em nós e assim transformar nosso estado de consciência. O que é a compreensão da espiritualidade? A crença de que somos espíritos? Não, isso é um pensamento. De fato, ele está um pouco mais próximo da verdade do que a idéia de que somos a pessoa descrita na nossa certidão de nascimento, mas, ainda assim, é um pensamento. A compreensão da espiritualidade é ver com clareza que o que nós percebemos, vivenciamos, pensamos ou sentimos não é, em última análise, quem somos, que não podemos nos encontrar em todas essas coisas, que são transitórias e se acabam continuamente. E provável que Buda tenha sido o primeiro ser humano a entender isso, e dessa maneira anata (a noção do não-eu) se tornou um dos pontos centrais dos seus ensinamentos. E, quando Jesus disse "Negue-se a si mesmo", sua intenção era afirmar: negue (e assim desfaça) a ilusão do eu. Se o eu - o ego - fosse de fato quem somos, seria um absurdo "negá-lo". O que permanece é a luz da consciência, sob a qual percepções, sensações, pensamentos e sentimentos vêm e vão. Isso é o Ser, o mais profundo e verdadeiro eu. Quando sabemos que somos isso, qualquer coisa que ocorra na nossa vida deixa de ter importância absoluta para adquirir importância apenas relativa. Respeitamos os acontecimentos, mas eles perdem sua seriedade plena, seu peso. A única coisa que faz diferença realmente é isto: podemos sentir nosso Ser essencial, o "eu sou", como o pano de fundo da nossa vida o tempo todo? Para ser mais exato, conseguimos sentir o "eu sou" que somos neste momento? Somos capazes de sentir nossa identidade essencial como consciência propriamente dita? Ou estamos nos perdendo no que acontece, na mente, no mundo?
terça-feira, 1 de novembro de 2011
quinta-feira, 17 de março de 2011
Ensaio do Psicanalista e Professor Raymundo de Lima: "O fanatismo religioso entre outros"
"O fanatismo religioso entre outros
Breve Ensaio
"O diabo empalidece comparado a quem dispõe de uma única verdade" (Emil Cioran)
"...todos os crentes parecem escandalosos e indiscretos: procura evitá-los" (Nietzsche)
Em nossa época, supostamente dominada pela ciência e pela tecnologia, o fanatismo parece ser uma reação made in recalcado do inconsciente da humanidade. Fanatismo, vem do latim fanaticus, quer dizer "o que pertence a um templo", fanum. O indivíduo fanático ocupa o lugar de escravo diante do senhor absoluto, que, pode ser uma divindade, um líder mundano, uma causa suprema ou uma fé cega. O fanatismo é alimentado por um sistema de crenças absolutas e irracionais que visa servir [1] à um ser poderoso empenhado na luta contra o Mal. Ou seja, o fanático acha que pode exorcizar pessoas e coisas supostamente possuídas pelo demônio" [2] , "combater as forças do Mal" ou "salvar a humanidade" do caos.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
A PLURALIDADE E O DIÁLOGO ENTRE RELIGIÕES - ARTIGO DO PADRE JOACHIM ANDRADE
Neste final de semana fiz o último módulo do curso de "Capacitação em Hatha Yoga", coordenado pelo Professor Marcos Rojo e organizado por Angélica e Aníbal, do Matsyendra Yoga. O Padre Joaquim, indiano radicado no Brasil há 18 anos, fez uma apresentação de dança indiana e depois fez uma palestra muito interessante. O foco da palestra era Yoga e dança indiana, entretanto algumas considerações sobre religião chamaram minha atenção. O Padre Joachim falou sobre o nascimento da religião hindu, destacando a ideia de "terra fértil". Em síntese, disse que no deserto - ante as características daquele ambiente - é para o céu que o homem olha, e lá estaria deus. Para as religiões originadas em terras férteis, vê-se fora um reflexo do universo interior, e quando o universo interno está organizado e equilibrado, sente-se o aspecto divino - ou seja, deus está dentro. Sobre reencarnação, falou dos ciclos da terra, claramente vistos na terra fértil, em razão do que é natural crer em reencarnação, ou seja, a cultura precede a crença e o dogma.
Reproduzo abaixo um artigo que encontrei, do Padre Joachim, publicado no site: http://www.pucrs.br/mj/artigo-a-pluralidade-e-o-dialogo-entre-as-religioes.php :
A pluralidade e o diálogo entre religiões
Percebe-se que nos últimos dez anos as grandes tradições religiosas vêm tomando consciência da necessidade de estabelecer relações mútuas que favoreçam a convivência harmoniosa entre elas. Os contextos de globalização, e de comunicação, bem como as relações internacionais promovem a imigração de pessoas qualificadas em diversas áreas, no Oriente e Ocidente, e facilitam a integração de etnias e religiões. Esta realidade trouxe um novo tema à Sociologia, à Antropologia e às Ciências da Religião: a co-existência cultural, que por sua vez, requer a prática do diálogo inter-religioso, introduzindo um cenário de diálogo entre as diferentes religiões no espaço brasileiro, tanto no âmbito do ensino religioso como na convivência social.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
"A CURA ESTÁ NO DOENTE" - ENTREVISTA COM O CIRURGIÃO PAULO TARSO DE LIMA
Não é habitual ouvir um médico respeitável, de uma instituição de saúde modelar, falar sobre o papel da energia do corpo humano e da religião no caminho para a cura. É justamente o caso do cirurgião Paulo de Tarso Lima, coordenador do Departamento de Medicina Integrativa e Complementar do Hospital Albert Einstein, de São Paulo. A medicina integrativa é uma prática em ascensão. Surgida nos Estados Unidos na década de 1970, une a medicina tradicional oriental, com sua abordagem holísitica, e a ocidental, apoiada na produção científica e na tecnologia. A reunião tem revolucionado a busca pela cura de doenças como o câncer. "A idéia não é excluir nada, mas juntar tudo e mostrar que a pessoa é detentora da capacidade de cura da própria doença", afirma Lima, que estudou a medicina integrativa na Universidade do Arizona (EUA) e cursa o primeiro ano da Barbara Brenner School of Healing, na Flórida, onde a cura é perseguida a partir do estudo da energia humana. O médico é também autor do livro Medicina Integrativa - A Cura pelo Equilíbrio. Na entrevista a seguir, ele explica os fundamentos da medicina integrativa e aposta que a prática vai se espalhar por aqui por razões econômicas - por ora, apenas alguns hospitais e somente cinco universidades brasileiros se dedicam ao assunto.
Afinal, o que é medicina integrativa?
É um movimento que surgiu nos Estados Unidos na década de 1970 e que começou a ser organizado com mais rigor na década de 1980, quando entrou para as faculdades de medicina. Hoje, existem 44 universidades americanas ligadas à pratica, que traz uma visão mais holística da pessoa no seu todo: corpo, mente e espírito. O que buscamos é oferecer uma assistência com informação e terapias que vão além da medicina convencional para ajudá-la a se conectar com a promoção de saúde. Eu não tenho a menor dúvida de que a medicina convencional é extremamente efetiva em se tratando de doença, mas saúde não é apenas ausência de doença.
Que terapias são essas?
Sistemas tradicionais como a medicina chinesa e indiana nos oferecem uma gama de alternativas, como acupuntura, Reiki, yoga, entre outras, que trabalham a energia do nosso corpo, estimulando uma reação aos sintomas das doenças. A idéia desse movimento não é excluir nada, mas juntar tudo e mostrar que a pessoa é detentora da capacidade de cura da própria doença. Isso é uma mudança de paradigma, porque a possibilidade de voltar ao estado saudável não é algo dado à pessoa, mas é algo inato a ela.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
A MÚSICA EM NÓS
Na minha opinião, o melhor, e um depoimento incontestável da doçura de Michael Jackson:
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segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Derrame de percepção - Dra.Jill Bolte Taylor
"Comecei a estudar o cérebro porque eu tenho um irmão diagnosticado com uma disfunção cerebral, a esquizofrenia. E como irmã e cientista, eu queria entender como eu faço para que os meus sonhos se conectarem com a realidade e se tornarem verdade – o que é o que acontece com o cérebro de meu irmão e sua esquizofrenia que ele não consegue conectar sua imaginação com o mundo real, e então ele se torna alucinado (Ou doente).
Então eu dediquei minha carreira em pesquisas sobre doenças mentais graves. Me mudei de minha casa em Indiana para Boston onde eu trabalhava no laboratório do Dr. Francine Benes, no departamento de Psiquiatria de Harvard. E no laboratório, nós nos perguntávamos uma questão, Quais são as diferenças biológicas entre os cérebros de indivíduos diagnosticados como normais em comparação com os que são diagnosticados com esquizofrenia ou transtorno bipolar. (schizoaffective não sei o que significa)
Estávamos mapeando o microcircuito do cérebro, quais células estão se comunicando com quais células através de quais elementos químicos e em que quantidade. Então havia muito sentido nesse meu tipo de vida porque eu estava fazendo esse tipo de pesquisa durante meu trabalho. Durante a noite e nos finais de semana eu viajava pela NAMI (National Alliance on Mental Illness)
Na manhã de dia 10 de Dezembro de 1996 eu acordei e descobri que eu tinha um distúrbio no cérebro. Um vaso sanguíneo explodiu no lado esquerdo do meu cérebro. E durante 4 horas observei meu cérebro se deteriorar completamente em suas habilidades em processar qualquer informação. Na manhã da hemorragia eu não conseguia andar, falar, ler, escrever ou me lembrar da minha vida. Me tornei um recém nascido no corpo de uma mulher adulta.
Se você já viu um cérebro humano fica óbvio que os dois hemisférios são completamente separados um do outro. E eu tenho um cérebro humano real aqui [Obrigado]. Isso é um cérebro humano. Aqui é a frente do cérebro, a parte de trás com o cordão espinhal pendurado e assim é como está posicionado dentro da minha cabeça. E quando você observa o cérebro, é óbvio que os dois hemisférios são completamente separados um do outro. Para quem entende de computadores, nosso lado direito funciona como um processo paralelo. Já o nosso lado esquerdo funciona como um processador serial. Os dois hemisférios se comunicam através do corpus collosum que é constituído de 300 milhões de fibras (axonal). Mas sem contar isso, eles são completamente separados. Como eles processam informação de forma diferente, cada lado do cérebro pensa em coisas diferentes, se importam com coisas diferentes e posso dizer que têm personalidades diferentes.
Nosso hemisfério direito é todo esse momento, sobre aqui e agora. Nosso hemisfério direito pensa em imagens e aprende kinesthetically através dos movimentos do corpo. Informação em forma de energia corre simultaneamente por todo nosso sistema sensorial. E então explode nessa enorme imagem (colagem) sobre o que significa esse momento presente. Quais os cheiros desse momento, os gostos, como é sentido e como é escutado. Eu sou um ser energético (?) conectado com toda a energia a minha volta por essa consciência do agora do lado direito do meu cérebro. Nós somos seres de energia conectados uns aos outros através da consciência do hemisfério direito como uma única família humana. E nesse momento, agora mesmo, todos somos irmãos e irmãs nesse planeta e estamos aqui para fazer o mundo melhor. E esse momento é perfeito. Nós estamos unidos. E somos maravilhosos.
Já o meu lado esquerdo é um lugar bem diferente. Nosso lado esquerdo pensa de forma linear e metódica. Ele pensa sobre em todo nosso passado, e também no futuro. O hemisfério esquerdo é desenhado para pegar essa enorme imagem desse exato momento e capturar mais detalhes e mais detalhes e ainda mais detalhes sobre os detalhes. Então ele classifica e organiza todas essas informações. Associa isso com tudo que aprendeu no passado e projeta todas as possibilidades disso para o futuro.E nosso lado esquerdo pensa na linguagem. E esse fluxo constante de informação do cérebro que conecta meu mundo interno com meu mundo externo. É aquela voz dentro da gente que me diz: “Você precisa se lembrar de comprar algumas bananas quando voltar para casa e come-las pela manhã”. É essa inteligência calculista que me lembra que tenho que lavar minhas roupas. Mas o mais importante, é que essa voz me diz: “Eu sou. Eu sou.” E no momento em que meu hemisfério esquerdo me diz “Eu sou” eu me torno separado. Me torno um indivíduo separado do fluxo de energia à minha volta e me separo de você.
E essa foi a parte do meu cérebro que eu perdi na manhã do meu derrame.
Na manhã do meu derrame, acordei com uma dor pulsante no meu olho esquerdo. E era uma dor do tipo causado por aquelas mordidas em sorvete. E a dor vinha e desaparecia, vinha e desaparecia e era muito estranho para mim sentir qualquer tipo de dor e então eu pensei: OK. Vou simplesmente seguir com minha rotina normalmente. Então eu fui até meu cardio glider (aparelho ginástica) que é uma máquina que exercita todo o meu corpo. E eu estava me exercitando nele quando me dei conta de que minhas mãos pareciam com garras primitivas segurando na barra do aparelho. Pensei: “Isso é muito incomum” e então olhei para meu todo meu corpo e pensei “Nossa, eu sou um ser esquisito”. Isso foi como se minha consciência tivesse mudado da minha percepção normal da realidade onde eu sou uma pessoa em um equipamento tendo uma experiência, para algo esotérico onde eu era um espectador de mim mesmo tendo essa experiência.
Isso tudo foi muito incomum e minha dor de cabeça estava piorando, saí do equipamento de ginástica e fui andando pela minha sala e percebi que tudo dentro do meu corpo estava lento, cada passo era muito firme e deliberado. O meu passo não fluía normalmente e tinha essa contrição na área de minhas percepções e eu estava focada nos meus sistemas internos. Então estou dentro do meu banheiro começando a tomar banho e eu podia ouvir o diálogo dentro do meu corpo, eu ouviu aquela voz dizendo “Músculos, agora é hora de contrair, músculos esse é o momento de relaxar”
Perdi meu equilíbrio e me apoiei na parede. Olhei para baixo na direção do meu braço e percebi que eu não conseguia mais definir os limites do meu corpo, onde eu começava e onde eu terminava. Porque os átomos e moléculas do meu braço estavam misturados com os átomos e moléculas da parede e tudo o que eu conseguia perceber e notar era a energia. Energia. E me perguntei: “O que está acontecendo comigo?” e nesse momento toda a “conversa” (no sentido de informação) do meu cérebro, do hemisfério esquerdo do meu cérebro entrou em profundo silêncio, como alguém que pega um controle remoto e aperta o botão mudo – silêncio total.
No primeiro momento me senti chocada ao me sentir com a mente em total silêncio. Mas imediatamente me senti atraída pela magnífica energia à minha volta. E porque eu não conseguia identificar as fronteiras do meu corpo meu senti gigante e expansiva, me senti como toda a energia é e era muito bonito aquilo.
De repente o meu hemisfério esquerdo voltou e me disse: “Hey, nós temos um problema, nós temos um problema, nós precisamos buscar ajuda” e era como, OK, OK, eu tenho um problema, mas eu voltava a essa consciência que eu carinhosamente dei o nome de La La Land, e era lindo lá. Imagine estar completamente desconectado das informações no seu cérebro que te conectam com o mundo exterior. Então aqui estou nesse espaço e não existe nenhuma preocupação comigo, com o meu trabalho, tudo sumiu e eu me senti mais leve no meu corpo e imagine todos as suas relações com o mundo exterior e as várias preocupações relacionadas com elas, tudo tinha desaparecido. Senti uma sensação de paz e imagine o que seria sentir perder 37 anos de bagagem emocional! Senti euforia. Euforia é maravilhoso – e então meu hemisfério esquerdo voltou e disse: “Hey, você precisa prestar atenção, precisamos encontrar ajuda” e pensei “Vou conseguir ajuda, vou focar nisso” Saí do chuveiro, me vesti e andando pelo meu apartamento estava pensando “Eu preciso ir trabalhar, preciso ir trabalhar. Eu consigo dirigir? Eu consigo dirigir?”
Foi nesse momento que meu braço direito ficou paralisado e pensei “O meu Deus! Estou tendo um derrame! Estou tendo um derrame!” e a próxima coisa que meu cérebro me disse foi “Nossa! Isso é legal, isso é legal. Quantos neurocientistas têm a oportunidade de estudar seu próprio cérebro do lado de dentro?”
Mas veio algo em minha mente: “Sou uma mulher ocupada. Não tenho tempo para um derrame!” e era como eu me dissesse: “OK, eu não posso parar o derrame então vou fazer isso por uma semana ou duas e voltar a minha rotina”
Eu tinha que chamar ajudar, precisava ligar para o meu trabalho. Não conseguia me lembrar do número do telefone, me lembrei que em meu escritório em casa tinha um cartão com o número. Fui ao meu escritório e encontrei vários cartões juntos e eu estava olhando para o 1° cartão e embora eu conseguia ver em minha mente como meu cartão era, eu não conseguia dizzer se aquele era meu cartão ou não, porque tudo que eu conseguia ver eram pontos (pixels). E os pontos das letras se misturavam com os pontos do fundo e dos símbolos e eu não entendia. Teria que espera um momento de clareza e então eu poderia saber qual era o cartão. Demorou 45 minutos para isso acontecer.
Nesses 45 minutos a hemorragia foi crescendo no meu cérebro, eu não entendi número, não entendia o telefone, mas esse era o único plano que eu tinha. Peguei o teclado do telefone e coloquei aqui, o cartão coloquei aqui e eu estava tentando combinar as formas no cartão com as formas no telefone. Só que em breve eu voltaria para a La La Land e não me lembraria qual número eu tinha discado ou não.
Tive que usar meu braço paralisado para cobrir os números a medida que os apertava, dessa forma eu saberia qual número tinha discado ou não. Consegui em certo momento discar todos os números e estava escutando o telefone e um colega meu atendeu de me disse: “Whoo, woo, wooo woo woo” Então pensei comigo “Meu Deus, ele parece um cachorro!” Então eu pensei claramente na minha mente “Aqui é a Jill! Eu preciso de ajuda!” E o que saiu da minha voz foi “Whoo woo wooo woo woo” Pensei “Oh Meu Deus, eu que pareço um cachorro” Assim eu não podia saber se eu não conseguia falar ou entender a linguagem humana.
Então ele percebeu que eu precisava de ajuda e me ajudou. Pouco tempo depois eu estava em uma ambulância indo de um hospital para outro então eu me senti em uma pequena bola fetal e como um balão com somente um resto de ar dentro senti minha energia me abandonar e senti meu espírito se rendendo. E nesse momento eu percebi que não era mais o coreógrafo da minha vida e nem os médicos que me resgataram e me deram uma secunda chance ou esse era talvez um momento de transição.
Quando eu acordei no final da tarde fiquei chocada em descobrir que ainda estava viva. Quando senti meu espírito se rendendo, disse adeus a minha vida, e a minha mente estava agora suspensa entre dois planos opostos da realidade. Os estímulos que me chegavam me causavam dor. A luz queimava o meu cérebro como fogo e os sons eram tão altos e caóticos que eu não conseguia separar uma voz do som de fundo e só queria sair dali. Porque eu não conseguia identificar a posição do meu corpo no espaço, me sentia enorme e expansiva, como um gênio que acabou de ler libertado de sua lâmpada. E meu espírito parecia livre como uma baleia navegando pelo oceano do silêncio eufórico. Harmonioso. Me lembro de pensar que não haveria como eu espremer novamente esse meu Eu enorme dentro daquele pequeno corpo.
E percebi: “Eu ainda estou viva! Ainda estou viva e encontrei o Nirvana. Encontrei o Nirvana e ainda estou viva, então todos que estão vivos podem encontrar o Nirvana” Imaginei um mundo cheio de beleza, paz, compaixão e pessoas que sabem que eles podem ir para aquele espaço na hora que quiserem e que eles podem escolher de forma proposital sair (mudar) do lado direito do cérebro para o esquerdo e encontrar a paz. E então percebi que tremendo presente essa experiência poderia ser, que um derrame (stroke of insights) poderia ser o modo como vivemos nossas vidas e isso me motivou a me recuperar.
Duas semanas e meia após minha hemorragia, os cirurgiões removeram um coágulo do tamanho de uma bola de golf que estava pressionando o meu centro de linguagens no cérebro. Aqui sou eu com minha mamãe que é um verdareiro anjo na minha vida. Demorou 8 anos para eu me recuperar.
Então, quem somos nós? Nós somos a força de vida poderosa do universo, com habilidades manuais e duas mentes. E nós temos o poder de escolher, a cada momento, quem e como nós queremos ser no mundo. Aqui e agora, nós podemos entrar no nosso lado direito do cérebro – Eu sou – a força de vida poderosa do universo, e a força poderosa de 50 trilhões de belas moléculas que me dão forma. Como um em tudo que é. Ou eu posso escolher pular para o lado esquerdo do meu cérebro, onde eu me torno um único indivíduo, sólido, separado de todo o fluxo, separado de você. Eu sou a Drª Jill Bolte Taylor, intelectual, neuroanatomista. Esses são o “nós” dentro de mim.
O que você vai escolher? O que você vai escolher? E quando? Acredito que quanto mais tempo escolhermos entrar nos profundos e pacíficos circuitos do nosso lado direito do cérebro, mais paz nós vamos projetar para o mundo e mais pacífico nosso planeta será. E eu acho que essa idéia que deveria ser espalhada."
terça-feira, 29 de junho de 2010
SOBRE CARÊNCIA
"Curando as feridas da criança interior
Bel Cesar
Quando o amor foi Insuficiente
Você sente que recebeu amor suficiente quando era criança? Cada um, a seu modo, tem uma história para contar… Basta escutar os enredos que surgem quando sonhamos dramas baseados no abandono e na carência afetiva. Há sonhos - ou melhor, pesadelos - que nos paralisam na sensação de uma intensa dor sem saída: resta-nos apenas a esperança de que um herói, que tenha coragem no coração, venha nos salvar! Apesar dessa força extra encontrar-se em nosso interior, nós a projetamos para fora de nós. Este é um hábito mental que desenvolvemos quando ainda éramos crianças.
É como escreve o mestre budista Tarthang Tulku em seu livro A mente oculta da liberdade: “À maioria de nós foi ensinado que o amor se acha fora de nós mesmos – é algo a ser obtido. Por isso, quando o encontramos, nós o agarramos firmemente, como se não houvesse o suficiente para todos. No entanto, na medida em que o amor se torna apego egoísta, nós nos isolamos da verdadeira intimidade. O amor mais gratificante que podemos vivenciar é o que já existe dentro de nós, no coração de nosso ser. Aí se encontra uma infinita fonte de calor, que podemos usar para transformar nossa solidão e infelicidade. Ao entrar em contato com essa energia nutriente, descobrimos os recursos interiores necessários para sermos verdadeiramente responsáveis pelo nosso próprio crescimento e bem-estar”.
Mensagens como essa são um estímulo de coragem e libertação para aqueles que já se sentem comprometidos com o caminho da transformação interior. Mas temos que admitir que enquanto estivermos presos à dor da carência e da falta de amor, não será suficiente saber racionalmente que sofremos porque não sabemos amar verdadeiramente.
Será preciso reviver a dor do abandono sob um novo prisma para superá-la.
Racionalizar a dor emocional faz parte do processo para curá-la, mas, em si, não é uma experiência capaz de gerar uma mudança autêntica e profunda.
Portanto, devemos partir do pressuposto de que não há nada de extraordinário no fato de admitir que recebemos amor insuficiente quando éramos crianças. Pois será a partir da aceitação desta falta que iremos encontrar forças para resgatar nosso amor interior.
Eva Pierrakos e Judith Saly dedicaram todo um capítulo a esta questão em seu livro Criando união (Ed. Cultrix). Elas escrevem: “Como as crianças muito raramente recebem suficiente amor maduro e bondade, elas continuam a ansiar por ele durante toda a vida, a menos que a falta e a mágoa sejam reconhecidas e devidamente manejadas. Caso contrário, os adultos seguirão pela vida chorando inconscientemente pelo que não tiveram na infância. Isso fará deles pessoas incapazes de amar com maturidade. Vocês podem ver como esta situação passa de geração em geração”.
Podemos não parar para pensar sobre como anda nosso fluxo de contabilidade do amor em nosso interior. Mas é importante nos conscientizarmos do forte elo que existe entre as nossas ansiedades de infância e as dificuldades afetivas que enfrentamos enquanto adultos.
O ponto de partida para romper esta linhagem de amor imaturo encontra-se num exercício de mão dupla: se por um lado passamos a nos abrir para aceitar o fato de que nos faltaram experiências significativas de reconhecimento de afeto, por outro, ficamos cientes de que esses sentimentos de carência e abandono não nos levarão a lugar nenhum. Isto é, a intenção de admitir a dor está vinculada à decisão de superá-la, e não de recriá-la!
Remoer a dor infantil sem a correspondente vontade de sair dela é como andar para trás, isto é, estaremos repetindo assim apenas os padrões emocionais já conhecidos em vez de refinar nossa alma.
A dinâmica do querer ser amado transforma-se no desejo de amar quando nos conscientizamos de uma vez por todas de que não adianta querermos que as coisas sejam diferentes ou que as pessoas aprendam a amar com maturidade para sermos mais bem servidos em matéria de amor.
Quando nos dispomos a amar verdadeiramente, damos inicio à jornada do amor maduro. Esta é uma bela frase; no entanto, só terá sentido quando nos propusermos a redirecionar nossas emoções de abandono e carência, isto é, quando não temermos mais sentí-las.
É preciso voltar ao local do crime para desvendar o mistério. As autoras Eva Pierrakos e Judith Saly revelam, no livro Criando união, um método de autoconhecimento para aplicarmos nos momentos em que reconhecermos, por trás de nossa raiva, frustração e ansiedade, a dor de não termos sido amados na infância: “Quando sentirem a dor de não serem amados no problema atual, ela servirá para despertar a dor da infância. Pensando na dor presente, voltem ao passado e tentem reconsiderar a situação com seus pais: o que eles lhe deram, o que vocês sentiam de fato por eles. Vocês perceberão que, sob muitos aspectos, sentiam falta de algumas coisas que nunca viram antes com clareza - porque não queriam ver. Vocês descobrirão que essa carência deve ter sido dolorosa na infância, mas a mágoa pode ter sido esquecida no nível consciente. No entanto, ela absolutamente não está esquecida. A dor causada pelo problema atual é exatamente a mesma dor do passado. Agora, reavaliem a dor atual, comparando-a com a da infância. Finalmente, será possível perceber que ambas são uma só. […] Depois de sincronizar as duas dores e perceber que elas são uma só, o passo seguinte é muito mais fácil”.
A cura, então, surge na medida em que reconhecemos que não somos mais tão indefesos diante da dor quanto pensávamos na infância. Como completam as autoras: “Já não precisarão ser amados como precisavam na infância. Primeiro, vocês adquirem consciência de que é isso o que ainda desejam, e depois já não buscam esse tipo de amor. Como vocês não são mais crianças, buscarão o amor de forma diferente, dando em vez de esperar receber”.
Quando filtramos a dor emocional por meio dos recursos já adquiridos na atualidade, vamos mesclando à dor passada a compreensão que nos faltava. Desta maneira, a necessidade de ser reconhecido pode ser substituída pela autovalidação. Do mesmo modo, a necessidade de expressar as emoções contidas poderá encontrar novos recursos de comunicação. Passamos a selecionar melhor as pessoas, e as situações nas quais poderemos finalmente nos tornar criativos e contribuir com nossa individualidade para o crescimento coletivo.
Em resumo, precisamos aprender a não temer nossas emoções fragilizadas pela falta de amor. Ao sentí-las, poderemos simplesmente nos posicionar positivamente e dizer: “OK, naquela época eu não tinha recursos para lidar com esta falta, por isso passei a pensar que não havia nada a fazer senão esperar passivamente por amor. Agora, posso agir, pois tenho minha consciência a meu favor, assim como a vontade de amar cada vez mais e melhor”.
Bel Cesar é terapeuta e dedica-se ao atendimento de pacientes que enfrentam o processo da morte.
Autora dos livros Viagem Interior ao Tibete, Morrer não se improvisa, O livro das Emoções e Mania de sofrer pela editora Gaia.Visite o Site
Email: belcesar@ajato.com.br
* Foto: Flora Guiet em cena "O fabuloso destino de Amèlie Poulain"
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